Governo admite que faltará dinheiro para manter políticas atuais a partir de 2028
Documento enviado ao Congresso com o Orçamento de 2027 prevê buraco de R$ 53,7 bilhões entre 2028 e 2030 dentro do arcabouço fiscal

O governo federal reconheceu, em documento entregue ao Congresso Nacional junto com o projeto de Orçamento de 2027, que o dinheiro disponível não será suficiente para manter as políticas públicas atuais a partir de 2028 sem revisão de gastos. O texto foi revelado pelo Estadão e ganhou repercussão nesta terça-feira (20), a menos de duas semanas do segundo turno.
A lógica do cálculo é simples. A equipe econômica estimou quanto custaria manter, nos anos seguintes, tudo o que está previsto para 2027, sem nenhum programa novo. Depois comparou esse valor com o espaço que o arcabouço fiscal deixa para essas despesas.
Onde a conta deixa de fechar
Em 2027, os dois lados empatam em R$ 222,1 bilhões. Em 2028, manter tudo como está passaria a custar R$ 224,2 bilhões, enquanto o espaço disponível cairia para R$ 208,4 bilhões. A diferença é de R$ 15,8 bilhões em 2028, R$ 14,9 bilhões em 2029 e R$ 23 bilhões em 2030, o que soma R$ 53,7 bilhões.
O motivo é o avanço das despesas obrigatórias, como Previdência e salários. Elas ocupam uma fatia cada vez maior do limite de gastos e reduzem o que sobra para investimentos e programas.
“Esforço contido e estável”
O que o governo diz
Na mensagem ao Congresso, o governo afirma que o ajuste pode ser feito dentro do próprio ciclo orçamentário, com reavaliação de programas e mudança de prioridades. A equipe econômica, comandada pelos ministros Dario Durigan (Fazenda) e Bruno Moretti (Planejamento), argumenta que a diferença representa menos de 1% do limite de gastos em cada ano.
Promessas ficaram de fora
A projeção foi feita em agosto e não considera medidas anunciadas depois por Lula na campanha à reeleição. Entre elas estão o reajuste do Bolsa Família, o Pix de R$ 5 mil para microempreendedores individuais e a gratuidade no transporte público aos fins de semana. Segundo o Estadão, essas propostas exigiriam ajuste de pelo menos R$ 39,8 bilhões já no Orçamento de 2027.
Há também divergência sobre o ponto de partida. O governo projeta superávit de R$ 18,6 bilhões em 2027, enquanto o mercado estima déficit de R$ 45,4 bilhões para o mesmo ano.
Tema entrou na disputa eleitoral
O documento chega no meio do debate fiscal entre os candidatos. O PT tem criticado o plano de ajuste do senador Flávio Bolsonaro (PL), apelidado por ele próprio de “tesouraço”, que prevê cortes na administração federal. Flávio nega que pretenda reduzir benefícios sociais. Adversários do governo, por sua vez, usam a projeção para afirmar que o próximo mandato, seja de quem for, vai herdar uma conta que não fecha.


