Amigo de Flávio Bolsonaro movimentou R$ 5 bilhões em cassino online, perdeu R$ 163 milhões e processou a bet. A Justiça negou
Willer Tomaz alegou vício em jogo para tentar reaver o prejuízo da Blaze; o advogado é investigado pela PF, e o caso já chegou ao STF envolvendo o candidato do PL

O advogado Willer Tomaz, amigo próximo do senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), movimentou quase R$ 5 bilhões em jogos de cassino na plataforma Blaze ao longo de 2025. Os números constam de um processo aberto pelo próprio advogado, no qual ele tentava recuperar R$ 163 milhões perdidos alegando ser viciado em jogo. A Justiça de São Paulo negou o pedido.
Os bilhões, porém, precisam de contexto. A cifra não representa dinheiro novo colocado na plataforma: ela soma o mesmo valor apostado, ganho e reapostado centenas de vezes. Pelos registros do processo, Tomaz perdeu R$ 4,96 bilhões e ganhou R$ 4,8 bilhões no ano. Em depósitos reais, foram cerca de R$ 300 milhões em 2025, contra R$ 137 milhões sacados.
Mesa exclusiva de R$ 500 mil por rodada
A ação foi protocolada em agosto na 44ª Vara Cível de São Paulo. A tese da defesa era que Tomaz desenvolveu ludopatia e que a Blaze, em vez de protegê-lo, o incentivou a continuar jogando. Entre os argumentos: um grupo de WhatsApp de atendimento exclusivo criado em 2023, R$ 42,2 milhões em bônus por assiduidade e mesas privativas de blackjack cujo limite por aposta foi subindo até R$ 500 mil, em rodadas de cerca de 30 segundos.
O processo também expõe a intensidade das apostas. Em 29 de julho de 2025, ele jogou das 2h às 4h da manhã, fez 11 depósitos de R$ 100 mil e perdeu tudo na roleta. Somando janeiro de 2025 a julho de 2026, foram 2.145 depósitos, que totalizaram R$ 325 milhões.
O que decidiu o juiz
O juiz Guilherme Madeira Dezem rejeitou o ressarcimento. Na sentença, entendeu que Tomaz não foi um apostador passivo: foi ele quem pediu as mesas exclusivas e os aumentos sucessivos de limite. Para o magistrado, as perdas fazem parte do risco que o próprio apostador assumiu. A única determinação favorável ao advogado foi que a Blaze deixe de enviar ofertas e promoções a ele.
A Blaze contestou a conta do prejuízo no processo e afirmou ter oferecido a Tomaz limites de depósito e a opção de autoexclusão, que ele teria recusado por escrito.
A investigação da PF
Fora do tribunal cível, a situação de Tomaz é mais delicada. Em agosto, ele foi alvo de buscas na Operação Sem Desconto, que investiga fraudes em descontos de aposentadorias do INSS. Em relatório, a Polícia Federal o descreveu assim:
“Verdadeiro hub financeiro, patrimonial e logístico” de investigados.
A PF também apura se as apostas na Blaze foram usadas para lavar dinheiro. Tomaz nega e diz que as operações ocorreram em contas próprias, de forma transparente e rastreável.
Onde entra Flávio Bolsonaro
Na última sexta-feira (16), a PF enviou ao Supremo Tribunal Federal um inquérito que apura suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo Tomaz e Flávio Bolsonaro. O caso nasceu de uma investigação no Rio Grande do Sul sobre plataformas de pagamento e casas de apostas e subiu ao STF porque o senador tem foro privilegiado. O relator é o ministro Alexandre de Moraes.
Segundo a PF, a análise do conteúdo do celular de Tomaz indicou que ele controlaria de fato a Rede Loto, primeira bet autorizada pelo governo do Rio de Janeiro. Os investigadores também listam registros de viagens, festas e reuniões com o senador e uma conta bancária da empresa Alcazar Holding na qual Flávio aparece como “usuário master”. A PF já pediu mais 90 dias para concluir a apuração.
A proximidade entre os dois é conhecida. Em 2025, viajaram juntos ao exterior em mais de uma ocasião, incluindo um safári na África do Sul e uma viagem a Portugal. Em janeiro daquele ano, Flávio voltou dos Estados Unidos num jatinho do qual Tomaz era cotista, ao lado do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master.
O outro lado
Flávio Bolsonaro classifica a relação como uma “amizade legítima” e nega ter tido qualquer conta bancária ligada a Tomaz ou às empresas dele. Tomaz afirma que os valores divulgados não correspondem à realidade, nega irregularidades e diz que a quebra de seu sigilo virou uma “pescaria probatória” com fins eleitorais. Até o momento, nenhum dos dois foi denunciado ou condenado.
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